O El Niño é um aquecimento fora do normal da água do Oceano Pacífico, perto da linha do Equador, que dura meses. Essa água quente muda o caminho dos ventos e das chuvas em boa parte do planeta. No Brasil, o efeito mais conhecido é mais chuva no Sul e menos chuva no Norte e em parte do Nordeste. Em setembro de 2026, o INMET informou 95% de chance de o El Niño atual chegar à categoria "muito forte" entre outubro e dezembro.
Parece estranho que o aquecimento de uma parte do Oceano Pacífico, do outro lado do mundo, possa mudar a chuva em Porto Alegre e o nível dos rios em Manaus. A explicação está na circulação da atmosfera, que liga oceanos e continentes. O El Niño é um dos fenômenos que mais influenciam o clima do Brasil, e entender como ele funciona ajuda a interpretar muitas notícias sobre enchentes, secas e calor.
Primeiro: como o Pacífico funciona num ano normal
Imagine o Oceano Pacífico perto do Equador como uma piscina enorme, com a América do Sul de um lado e a Indonésia e a Austrália do outro. Ali sopram os ventos alísios, que vão de leste para oeste, ou seja, da América do Sul em direção à Ásia.
Esses ventos empurram a água quente da superfície para o lado da Ásia. Lá, a água fica mais quente e o ar sobe, formando muitas nuvens e chuva. Do lado da América do Sul, perto do Peru, água fria do fundo do mar sobe para ocupar o lugar. Por isso o mar do Peru costuma ser gelado, mesmo perto do Equador.
Sopram de leste para oeste e empurram a água quente para a Ásia.
O mar fica frio do lado americano.
O ar quente e úmido sobe sobre a Indonésia e forma muitas nuvens.
O que muda quando o El Niño chega
No El Niño, os ventos alísios perdem força. Sem o empurrão, a água quente que estava acumulada do lado da Ásia "volta" e se espalha pelo meio e pelo leste do Pacífico, em direção à América do Sul. A água fria do Peru deixa de subir como antes.
Resultado: a região de nuvens e chuva forte também se muda para o meio do oceano. E como a atmosfera é toda conectada, essa mudança mexe com as correntes de vento que passam por cima do Brasil. É como mudar um móvel grande de lugar na sala: de repente, todo mundo precisa andar por outro caminho.
Por que o nome? "El Niño" quer dizer "o menino" em espanhol. Pescadores do Peru perceberam, séculos atrás, que em alguns anos a água esquentava perto do Natal, época do nascimento do Menino Jesus. O fenômeno oposto, quando o Pacífico fica mais frio que o normal, ganhou o nome de La Niña, "a menina".
Como os cientistas medem o El Niño
Ninguém precisa conhecer o Pacífico com termômetro. Boias espalhadas no oceano e satélites medem a temperatura da água o tempo todo. Os cientistas olham principalmente para uma área no meio do Pacífico, chamada Niño 3.4, e comparam a temperatura com a média.
A regra geral é esta: quando a água fica pelo menos 0,5 °C acima da média por vários meses seguidos, é El Niño. Quanto maior a diferença, mais forte o evento:
| Força do El Niño | Água acima da média |
|---|---|
| Fraco | de 0,5 °C a 1,0 °C |
| Moderado | de 1,0 °C a 1,5 °C |
| Forte | de 1,5 °C a 2,0 °C |
| Muito forte | 2,0 °C ou mais |
Meio grau parece pouco, né? Mas estamos falando de uma área de oceano maior que o Brasil. Esquentar tanta água exige uma quantidade gigantesca de energia, e essa energia vai parar na atmosfera.
O que o El Niño faz com o Brasil, região por região
Cada El Niño é um pouco diferente, mas o INPE e o INMET observam alguns padrões que se repetem:
| Região | Efeito mais comum | Por quê |
|---|---|---|
| Sul | Mais chuva, temporais e risco de enchentes, principalmente na primavera | Ventos fortes em altitude seguram as frentes frias por mais tempo sobre o Sul |
| Norte | Menos chuva e seca, sobretudo no norte e leste da Amazônia | A chuva "se muda" com a mudança na circulação dos ventos |
| Nordeste | Menos chuva no norte da região, na estação chuvosa de fevereiro a maio | O ar desce sobre a região e atrapalha a formação de nuvens |
| Sudeste e Centro-Oeste | Tendência de temperaturas mais altas; chuva variável | Ficam no meio do caminho entre os dois padrões |
Exemplos que o Brasil já viveu
- Amazônia, 2023: durante o El Niño de 2023, o Rio Negro, em Manaus, chegou a 12,70 metros em 26 de outubro, o nível mais baixo desde o início das medições, em 1902. Comunidades ficaram isoladas porque os barcos não conseguiam passar.
- Sul, 2023: no mesmo período, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina tiveram chuvas fortes e enchentes repetidas.
Cuidado com o "foi tudo culpa do El Niño": o El Niño aumenta as chances de certos tipos de tempo, mas não decide sozinho cada chuva. Outros fatores, como a temperatura do Oceano Atlântico e o aquecimento global, também entram na conta. Por isso os cientistas falam em probabilidade, e não em certeza.
E o El Niño de 2026?
Esta parte do artigo traz a situação mais recente e é atualizada quando saem novos boletins. Última verificação: 3 de outubro de 2026.
Em 2026 o Pacífico voltou a esquentar com força. No boletim de setembro de 2026, o INMET, junto com o INPE e outros órgãos federais, informou 95% de chance de o El Niño chegar à categoria "muito forte" no trimestre de outubro a dezembro, e chance de ele continuar até pelo menos o começo de 2027. A NOAA, a agência de clima dos Estados Unidos, deu mais de 90% de chance de um evento muito forte no mesmo período.
A previsão para o Brasil seguiu o padrão clássico: chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país. Para quem mora no Sul, vale ficar de olho nos avisos da Defesa Civil. Para quem mora no Norte e no Nordeste, a atenção vai para a seca e o nível dos rios.
O El Niño e o tempo na sua cidade
Você não precisa decorar tabelas para usar essa informação. Três dicas práticas:
- Acompanhe fontes oficiais: o INMET publica o Painel El Niño todo mês, e a Defesa Civil do seu estado envia alertas por SMS (basta mandar o seu CEP para o número 40199).
- Entenda a diferença entre tempo e clima: o El Niño muda a tendência da estação, mas a previsão do tempo de amanhã continua sendo a melhor informação para o dia a dia.
- Desconfie de exageros: o El Niño aumenta alguns riscos, mas não garante catástrofes. Prefira as informações do INMET, do INPE e da Defesa Civil.
Quer entender os outros fenômenos que aparecem nessa história? Veja como funcionam os ciclones no Brasil, como funciona a chuva e por que ondas de calor acontecem.
Perguntas que todo mundo faz
É o aquecimento fora do normal da água do Oceano Pacífico perto do Equador, que dura meses e muda os ventos e as chuvas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
No El Niño, o Pacífico fica mais quente que o normal. Na La Niña, fica mais frio. Os efeitos no Brasil costumam ser quase opostos: a La Niña tende a trazer menos chuva ao Sul e mais chuva ao Norte.
Não existe um calendário fixo. Em geral, um El Niño aparece a cada dois a sete anos e dura de nove meses a dois anos.
Ele aumenta a chance de chuva forte no Sul, porque segura as frentes frias na região. Mas cada enchente depende também de outros fatores, como a quantidade de chuva acumulada e o terreno.
Como produzimos este conteúdo: este artigo foi escrito pela Redação Como Tudo Funciona com base em fontes oficiais e referências científicas, listadas abaixo. Os números sobre o El Niño de 2026 mudam a cada boletim e foram conferidos na data de atualização indicada no topo da página.
- INMET: Painel El Niño, boletim de setembro de 2026
- NOAA Climate Prediction Center: ENSO Diagnostic Discussion (setembro de 2026, em inglês)
- Agência Gov: efeito do El Niño no Sul e no Norte (2023)
- Cemaden: nota técnica sobre o El Niño no Nordeste
- Metrópoles: Rio Negro em Manaus atinge o menor nível em 121 anos (2023)




