Quem já dirigiu à noite numa estrada de terra conhece a cena: o farol ilumina o mato e, de repente, aparecem dois pontinhos brilhando. Pode ser um gato, um cachorro, um cavalo, até um jacaré na beira do rio. Os olhos parecem ter luz própria. Não têm. O que você vê é a luz do seu próprio farol voltando, graças a um espelho que muitos animais carregam dentro do olho.
O espelho dentro do olho
O nome é em latim: tapetum lucidum, algo como "tapete brilhante". É uma camada que fica atrás da retina, a parte do olho que transforma luz em sinal para o cérebro. A função dela é dar à retina uma segunda chance de aproveitar a luz.
Pela pupila, que à noite fica bem aberta para deixar passar o máximo possível.
Parte da luz é captada pelas células sensíveis. Parte passa direto, sem ser aproveitada.
A camada refletora devolve essa luz para a frente.
As células sensíveis têm mais uma oportunidade de captar a luz. Em pouca luz, isso faz diferença.
A luz que não foi aproveitada volta pela pupila. Se você estiver com a lanterna perto dos seus olhos, vê esse reflexo como um brilho.
É o mesmo princípio dos olhos de gato das estradas, aqueles refletores no asfalto: devolvem a luz na direção de onde ela veio. Por isso o brilho aparece melhor quando a luz está perto do rosto de quem olha, como um farol ou uma lanterna na mão.
O preço do brilho
O tapetum tem um custo. Quando a luz é refletida, ela se espalha um pouco dentro do olho, e a imagem perde nitidez. É uma troca: o animal ganha sensibilidade em pouca luz e perde definição. Por isso ele aparece em bichos que caçam ou se movem no crepúsculo e à noite, e costuma faltar em animais que vivem de dia, que se beneficiam mais de uma visão nítida.
Por que alguns olhos brilham verde e outros amarelo
A cor do brilho depende do material do espelho e de como ele está arrumado. Existem tipos diferentes de tapetum:
- Celular, feito de camadas de células com cristais. É o dos carnívoros. No cachorro, os cristais têm zinco; no gato, riboflavina (a vitamina B2) e zinco.
- Fibroso, feito de fibras. É o de vacas, ovelhas, cabras e cavalos.
- De guanina, com cristais brilhantes, como em tubarões e raias.
Além do tipo, a cor muda com a espécie, com a idade e até com o ângulo da luz. Por isso dois gatos podem ter brilhos diferentes, e o mesmo animal pode brilhar verde de um ângulo e amarelado de outro. Tentar identificar um bicho só pela cor do brilho é pouco confiável.
E os olhos vermelhos nas fotos?
Pessoas não têm tapetum lucidum. Mesmo assim, em fotos com flash, os olhos às vezes saem vermelhos. A explicação é outra: o flash entra pela pupila aberta e ilumina o fundo do olho, que é cheio de vasos sanguíneos. A câmera registra essa luz avermelhada voltando. Por isso os celulares modernos têm o recurso de "redução de olhos vermelhos", que dispara uma luz antes da foto para a pupila fechar.
Em fotos de gatos e cachorros com flash, o que aparece é o brilho do tapetum, em geral esverdeado ou amarelado, e não o vermelho.
Quem tem e quem não tem
| Animal | Tapetum lucidum | Para que serve |
|---|---|---|
| Gato | Sim (celular, com riboflavina e zinco) | Caçar no escuro e no crepúsculo |
| Cachorro | Sim (celular, com zinco) | Enxergar no crepúsculo e à noite |
| Vaca, cavalo, cabra | Sim (fibroso) | Atividade também em pouca luz |
| Jacaré | Sim | Caçar à noite na água |
| Tubarões e raias | Sim (guanina) | Pouca luz no fundo do mar |
| Ser humano e macacos | Não | Visão diurna, com mais nitidez e cores |
| Porco | Não | Animal de hábitos diurnos |
| Esquilos e a maioria dos roedores diurnos | Não | Ativos de dia |
O caso das corujas
Aqui vale ser honesto: as fontes não concordam. Algumas descrevem um tapetum nas corujas; outras afirmam que as aves, em geral, não têm essa camada, e explicam o brilho que às vezes aparece nos olhos delas de outra forma. O que não gera dúvida é o principal trunfo das corujas no escuro: olhos enormes em relação à cabeça, em formato de tubo, com uma retina cheia de células especializadas em pouca luz. Como os olhos quase não se mexem, a coruja compensa girando a cabeça, até cerca de 270 graus.
No Brasil: brilhos que ajudam a ciência
O reflexo dos olhos não é só curiosidade. No Pantanal, pesquisadores da Embrapa já contaram jacarés exatamente assim: em um estudo com o jacaré-paguá na Serra do Amolar, eles percorreram a pé as margens de riachos, à noite, com lanternas, e contaram os animais pelo brilho dos olhos na luz. É um método simples para encontrar bichos que, de dia, ficariam escondidos.
Até algumas aranhas refletem luz. Com uma lanterna na altura dos olhos, dá para ver pontinhos brilhantes no gramado à noite: são os olhos de aranhas caçadoras. Se o assunto é aranha, vale ler também como funciona uma teia de aranha.
E se a curiosidade é sobre outros sentidos noturnos, veja como os morcegos "enxergam" com o som e quantos anos vive um gato.
Perguntas frequentes
Porque atrás da retina ele tem uma camada refletora, o tapetum lucidum. Ela devolve a luz para a retina e, o que sobra, sai pelo olho como brilho quando há uma luz perto de quem observa.
Não. O brilho é reflexo de uma luz externa, como um farol ou uma lanterna. No escuro total, o olho não brilha.
Não. O olho vermelho nas fotos com flash é a luz refletida pelo fundo do olho, cheio de vasos sanguíneos.
Depende do tipo de tapetum, da espécie, da idade e do ângulo da luz. Por isso a cor do brilho não é um jeito confiável de identificar um animal.
Sim. O cachorro tem tapetum lucidum com cristais de zinco, e os olhos dele também refletem a luz à noite.




