No fim do século XVIII, o cientista italiano Lazzaro Spallanzani fez um experimento que hoje seria impensável: impediu que morcegos enxergassem e os soltou em uma sala cheia de fios. Eles voaram sem bater em nada. Quando outro pesquisador tapou os ouvidos dos animais, aí sim eles começaram a trombar. A conclusão parecia absurda na época: os morcegos "viam" com os ouvidos.
Só no século XX, com microfones capazes de captar sons que o ouvido humano não percebe, o mistério foi resolvido. O biólogo americano Donald Griffin deu nome ao fenômeno: ecolocalização. O morcego grita e escuta o eco.
A cadeia completa, do grito à presa
Um chamado curto e muito agudo, produzido na laringe, como a nossa voz. Muitos morcegos soltam o som pela boca; outros, pelas narinas.
A cerca de 343 metros por segundo, a velocidade do som no ar a 20 graus.
Um inseto, um galho, uma parede. Parte do som volta como eco.
Orelhas grandes e móveis funcionam como antenas e ajudam a saber de que lado o eco chegou.
O tempo entre o grito e o eco dá a distância. A diferença entre as duas orelhas dá a direção. A força e o "desenho" do eco dizem o tamanho e a textura do alvo.
Tudo isso acontece em milésimos de segundo, várias vezes por segundo, enquanto ele voa.
A conta do eco
O princípio é simples: o som vai até o objeto e volta. O tempo de ida e volta é o dobro da distância dividido pela velocidade do som. Fizemos a conta para algumas distâncias:
| Distância até o inseto | Tempo até o eco voltar |
|---|---|
| 20 centímetros | cerca de 1,2 milésimo de segundo |
| 1 metro | cerca de 5,8 milésimos de segundo |
| 5 metros | cerca de 29 milésimos de segundo |
| 10 metros | cerca de 58 milésimos de segundo |
Um piscar de olhos dura entre 100 e 400 milésimos de segundo. Ou seja: o morcego recebe e interpreta o eco de um inseto a 1 metro em um tempo mais de dez vezes menor que uma piscada. É por isso que o sistema funciona em pleno voo, com a presa também se mexendo.
Sons que a gente não escuta
A maioria dos chamados de ecolocalização fica entre 20 e 200 quilohertz. O ouvido humano, em um jovem saudável, vai até cerca de 20 quilohertz. Por isso a noite parece silenciosa mesmo com vários morcegos caçando por perto. Os sons mais graves, que alguns morcegos usam para se comunicar entre si, às vezes chegam a ser audíveis como estalos ou chiados.
Sons agudos têm uma vantagem: ondas curtas refletem bem em objetos pequenos, como um mosquito. A desvantagem é que perdem força rápido no ar, então o alcance é de poucos metros para presas pequenas.
O "zumbido final"
Quando o morcego está procurando, ele emite poucos chamados por segundo. Ao perceber um inseto, acelera. Nos últimos instantes antes da captura, chega a mais de 200 chamados por segundo, uma sequência tão rápida que, gravada e desacelerada, parece um zumbido. Os pesquisadores chamam isso de "buzz" final. Quanto mais perto do alvo, mais atualizações por segundo o cérebro recebe.
Como ele não fica surdo com o próprio grito
O chamado de um morcego pode ser muito forte, e o eco que ele precisa ouvir é fraquíssimo. A solução é um pequeno músculo do ouvido médio que se contrai alguns milésimos de segundo antes de cada grito, diminuindo a sensibilidade na hora da emissão, e relaxa logo depois, a tempo de captar o eco. Um estudo de 2024 também mostrou que morcegos que usam ecolocalização são mais resistentes à perda auditiva temporária causada por barulho do que outros mamíferos.
E no Brasil? Os morcegos que "sussurram"
Boa parte dos morcegos brasileiros pertence à família dos filostomídeos, os morcegos de folha nasal. Eles têm uma estrutura de pele em forma de folha em cima do nariz e emitem os chamados pelas narinas; a folha ajuda a direcionar o som, como um pequeno megafone. Muitos deles, estudados na Amazônia Central, usam chamados de baixa intensidade, e por isso são chamados de morcegos "sussurrantes". Faz sentido: quem come frutas ou néctar não precisa gritar para achar um mosquito em pleno voo.
O morcego-vampiro-comum, também da família, tem ainda um truque extra: sente calor. Um estudo publicado na revista Nature em 2011 mostrou que ele tem, no nariz, sensores ajustados para detectar a radiação infravermelha do corpo de um animal e encontrar os pontos em que o sangue passa mais perto da pele.
Ecolocalização e sonar: qual a diferença
| Morcego | Sonar de navio | |
|---|---|---|
| Meio | Ar | Água |
| Velocidade do som | Cerca de 343 m/s | Cerca de 1.500 m/s |
| Alcance típico | Poucos metros para insetos | Centenas de metros a quilômetros |
| Processamento | Cérebro, em tempo real, durante o voo | Computador |
| Ajuste | Muda frequência, duração e ritmo a cada situação | Configurado pelo operador |
O princípio é o mesmo: emitir um som e medir o eco. Golfinhos fazem algo parecido embaixo d'água.
Quando a ecolocalização falha
- Vidros e fachadas lisas. Em 2017, pesquisadores do Instituto Max Planck mostraram que superfícies lisas e verticais funcionam como "espelhos acústicos": o som bate e é refletido para longe, sem voltar ao morcego. A parede parece um caminho livre. No experimento, 19 de 21 morcegos bateram ao menos uma vez em uma placa lisa colocada na parede. Isso ajuda a explicar colisões com prédios de vidro.
- Presas que se defendem. Algumas mariposas percebem o ultrassom e mudam o voo. Uma espécie de mariposa-tigre vai além: emite estalos ultrassônicos que confundem o sonar do morcego. Um estudo de 2009 mostrou que os morcegos só conseguiram pegar essa mariposa em cerca de uma a cada cinco tentativas.
- Barulho. Ruídos fortes nas mesmas frequências atrapalham a escuta do eco.
- Sem audição, sem ecolocalização. Foi exatamente o que o experimento antigo de tapar os ouvidos mostrou: o sistema depende inteiramente do ouvido.
Então morcego é cego?
Não. Todos os morcegos enxergam. A ecolocalização completa a visão no escuro, especialmente para achar objetos pequenos e próximos. Muitos morcegos que comem frutas se orientam bastante pela visão e pelo olfato. A expressão "cego como um morcego" é um mito, assim como a ideia de que todos bebem sangue: dos mais de 170 tipos de morcego do Brasil, só três fazem isso, como contamos em por que o morcego e outros animais viraram símbolos do Halloween.
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Perguntas frequentes
Ele emite sons muito agudos e escuta o eco. O tempo que o eco leva para voltar indica a distância, e as duas orelhas indicam a direção. Além disso, morcegos também enxergam com os olhos.
Na maioria dos casos, não. Os chamados ficam entre 20 e 200 quilohertz, acima do limite da audição humana, que é de cerca de 20 quilohertz.
Superfícies lisas e verticais refletem o som para longe, como um espelho. O eco não volta, e o morcego interpreta a parede como caminho livre.
Os morcegos do Brasil usam, mas com estilos diferentes. Os de folha nasal, por exemplo, emitem chamados fracos pelas narinas. Em outras partes do mundo existem morcegos frugívoros que dependem mais da visão.
O princípio é o mesmo. A ecolocalização acontece no ar e é processada pelo cérebro em tempo real; o sonar de navio funciona na água, onde o som é mais de quatro vezes mais rápido, e é processado por computador.
- U.S. National Park Service: Echolocation
- Scientific American: How do bats echolocate?
- Estudo de 2024: morcegos ecolocalizadores e perda auditiva por ruído
- Mammal Research (2020): ecolocalização dos filostomídeos "sussurrantes" da Amazônia Central
- Instituto Max Planck: fachadas de vidro como ilusão acústica para morcegos (2017)
- Science (2009): mariposa-tigre bloqueia o sonar dos morcegos
- Nature (2011): como o morcego-vampiro detecta calor




