A água que sai da sua torneira hoje de manhã estava, alguns dias atrás, em um rio ou em uma represa, misturada com terra, folhas e microrganismos. No caminho até a sua casa, ela passou por uma verdadeira fábrica, que funciona 24 horas por dia e muda a receita conforme o tempo lá fora. Veja o caminho completo.
O caminho da água, em um só olhar
É o manancial, de onde vem a água bruta.
Bombas puxam a água do manancial.
Uma tubulação grande leva a água bruta até a estação.
Na Estação de Tratamento de Água, a água é limpa em várias etapas.
A água tratada fica guardada em grandes caixas, na estação e nos bairros.
Canos debaixo das ruas levam a água até cada casa.
A água passa pelo hidrômetro e, em muitas casas, pela caixa d'água antes de chegar à torneira.
Dentro da ETA: a fábrica de água limpa
A sujeira da água do rio é, em boa parte, formada por partículas tão pequenas que não afundam sozinhas. Elas ficam flutuando por dias. O truque da estação de tratamento é fazer essas partículas se juntarem até ficarem pesadas. As etapas abaixo seguem a descrição da Sabesp, a companhia de São Paulo.
1. Coagulação: a "cola"
A água recebe um produto chamado coagulante, como o sulfato de alumínio ou o cloreto férrico, e é agitada com força. As partículas de sujeira têm cargas elétricas que fazem umas empurrarem as outras. O coagulante desfaz esse empurra-empurra, e elas passam a poder grudar.
2. Floculação: os flocos crescem
Agora a água é mexida devagar. Com o movimento suave, as partículas se encontram e grudam, formando flocos cada vez maiores, que dá para ver a olho nu.
3. Decantação: a sujeira afunda
A água passa bem devagar por tanques enormes. Os flocos, já pesados, afundam e formam uma camada de lodo no fundo. A água de cima sai bem mais clara.
4. Filtração: a peneira fina
A água atravessa filtros feitos de camadas de pedras, areia e carvão. Eles seguram os flocos pequenos que não afundaram. De tempos em tempos, os filtros são lavados com água no sentido contrário, para soltar a sujeira presa.
5. Desinfecção, pH e flúor: os toques finais
- Cloro: elimina microrganismos que passaram pelas etapas anteriores.
- Cal: corrige o pH, a acidez da água, para que ela não corroa os canos pelo caminho.
- Flúor: é adicionado porque a lei exige, desde 1974, em todo lugar onde existe estação de tratamento.
Por que o cloro continua na água até a sua casa
O cloro não serve só para limpar a água dentro da estação. Ele segue junto pelos canos como uma "proteção" durante a viagem. Se algum microrganismo entrar na rede no caminho, o cloro que sobrou age sobre ele.
Por isso as regras do Ministério da Saúde (a Portaria nº 888, de 2021) exigem que exista um pouco de cloro em toda a rede, dos reservatórios até a ponta dos canos: no mínimo 0,2 miligrama por litro. Também existe um limite máximo, de 5 miligramas por litro. É esse cloro que às vezes dá para sentir no cheiro, principalmente nas casas mais perto da estação.
Água tratada ou água potável?
Parecem a mesma coisa, mas não são:
| Água tratada | Água potável | |
|---|---|---|
| O que é | Água que passou pela estação de tratamento | Água que cumpre todas as regras de qualidade no ponto em que é usada |
| Onde se mede | Na saída da estação | Em toda a rede, até a torneira |
A água pode sair da estação perfeita e perder qualidade no caminho. Os motivos mais comuns:
- Canos quebrados ou velhos: quando falta pressão na rede, sujeira de fora pode entrar pelas rachaduras.
- Obras e consertos: depois de uma manutenção, é comum a água sair turva por um tempo, com sujeira que se soltou dos canos.
- A caixa d'água da casa: depois do hidrômetro, a responsabilidade é do morador. Caixa sem tampa ou sem limpeza pode sujar uma água que chegou boa. A Sabesp, por exemplo, recomenda limpar a caixa d'água pelo menos a cada seis meses e mantê-la sempre bem tampada.
Quando a água muda de cheiro ou de gosto
Nem toda mudança quer dizer problema de segurança, mas toda mudança merece atenção. Os casos mais conhecidos:
- Cheiro de cloro: é o cloro da proteção, descrito acima.
- Gosto de terra: costuma vir de substâncias produzidas por algas no manancial. Em janeiro de 2020, moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro sentiram gosto e cheiro de terra na água. A causa foi a geosmina, uma substância produzida por algas no rio Guandu. A Cedae passou a usar carvão ativado, que segura a geosmina, de forma permanente no começo do tratamento.
- Água turva ou amarelada: pode ser sujeira solta nos canos depois de uma obra ou ferrugem da tubulação.
Em caso de dúvida, o caminho é avisar a companhia de saneamento da sua cidade.
O que acontece quando chove muito
A chuva forte leva terra para os rios, e a água bruta chega à estação muito mais barrenta. A estação precisa reagir: a quantidade de coagulante depende de quanta sujeira a água traz, e a turbidez (o quanto a água está turva) é acompanhada de perto. Por isso a receita do tratamento não é fixa: ela muda com o tempo lá fora.
Às vezes, porém, a própria estação é atingida. Na enchente de maio de 2024 em Porto Alegre, quatro das seis estações de tratamento do Dmae, o órgão de água da cidade, ficaram fora de operação, inundadas ou desligadas por segurança, e 85% da população ficou sem água. Sem estação e sem energia elétrica para as bombas, a água simplesmente não chega. É um lembrete de que a estação fica, quase sempre, perto do rio, justamente onde a água sobe.
E o lodo, vai para onde?
Toda a sujeira que afunda nos decantadores e fica nos filtros vira lodo. É uma quantidade grande e constante. Estudos brasileiros mostram que, por muito tempo, muitas estações simplesmente devolviam esse lodo ao rio mais próximo, sem tratamento. Essa prática vem sendo cobrada e substituída por outros destinos:
- Secar o lodo e mandar para aterro sanitário, o mesmo destino do lixo que não pode ser reciclado (veja como funcionam a coleta seletiva e a reciclagem).
- Enviar para uma estação de tratamento de esgoto, junto com o lodo de lá.
- Aproveitar na construção civil, por exemplo em tijolos e cerâmica, uma linha que vem sendo estudada.
O lodo das estações de água é classificado pela norma técnica brasileira como resíduo não perigoso, mas não inerte, e por isso precisa de destino controlado.
Cidade grande e zona rural: dois mundos
Segundo os dados do SINISA 2024, o sistema oficial de informações de saneamento, 80,6% dos domicílios do país são atendidos por rede de água. A meta do Marco Legal do Saneamento é chegar a 99% da população com água até 2033.
| Cidade grande | Zona rural e comunidades pequenas | |
|---|---|---|
| De onde vem a água | Grandes represas e rios, muitas vezes longe da cidade | Poços, nascentes ou pequenos rios |
| Tratamento | Grandes estações com todas as etapas | Muitas vezes só filtração e cloro, ou soluções da própria comunidade |
| Controle | Laboratórios próprios, análises o dia todo | Depende de fiscalização da vigilância em saúde do município |
As regras do Ministério da Saúde valem também para essas "soluções alternativas", como um poço que abastece um bairro, mas a estrutura para cumprir é bem diferente de uma grande estação.
Para entender de onde vem a água dos rios e represas, veja como funciona a chuva e o ciclo da água no Brasil. E para saber o que acontece com a água depois que ela desce pelo ralo, leia como funciona o tratamento de esgoto.
Perguntas frequentes
Coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção com cloro, além da correção do pH e da adição de flúor.
Porque as regras exigem que um pouco de cloro fique na água em toda a rede, para proteger a água durante o caminho até as casas.
Água tratada é a que passou pela estação. Água potável é a que cumpre as regras de qualidade no ponto em que é usada. A água pode perder qualidade no caminho, por exemplo por canos quebrados ou caixa d'água suja.
Normalmente por causa de substâncias produzidas por algas no rio ou na represa, como a geosmina. As estações podem usar carvão ativado para retirar esse gosto.
Ela vira lodo. Hoje o destino pode ser um aterro sanitário, uma estação de tratamento de esgoto ou o reaproveitamento, por exemplo na construção civil.
- Sabesp: as etapas do tratamento de água (infográfico)
- Ministério da Saúde: Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021 (padrão de potabilidade)
- Ministério das Cidades: relatório SINISA 2024, abastecimento de água
- Sabesp: limpeza de caixa d'água
- Agência Brasil: Cedae vai usar carvão ativado (geosmina, 2020)
- Jornal do Comércio: estações fora de operação em Porto Alegre (maio de 2024)
- Engenharia Sanitária e Ambiental: resíduos das estações de tratamento de água de Pernambuco




