Se você pesquisou "como funciona o Drex" e encontrou textos dizendo que o real digital ia chegar ao seu celular, com um aplicativo para pagar e transferir, esses textos ficaram para trás. O projeto mudou bastante desde 2023. Neste artigo você entende como o Drex foi desenhado, o que o Banco Central realmente testou, por que desligou a plataforma em 2025 e o que ficou de pé.
Resumo em uma frase: o Drex nunca foi um aplicativo para o público. Era uma infraestrutura para bancos, testada entre 2023 e 2025. A plataforma de testes foi desligada em novembro de 2025, e a nova fase prevista para 2026 é bem mais simples: um sistema para bancos consultarem se um bem já está dado em garantia.
A linha do tempo do Drex
2020 a 2022: o Banco Central começa a estudar uma versão digital do real e faz um laboratório com o mercado.
2023: o projeto ganha o nome Drex. Começa a primeira fase do piloto, com 16 consórcios de bancos e empresas de tecnologia.
Maio de 2024: o BC publica a Resolução nº 382 e abre a segunda fase. No mesmo anúncio, reconhece que as soluções de privacidade ainda não estavam maduras e que testes com a população não tinham data.
Fevereiro de 2025: sai o relatório da primeira fase. Das quatro linhas de privacidade testadas, duas são descartadas.
Novembro de 2025: o BC decide desligar a plataforma de testes baseada em blockchain.
2026: está prevista uma nova fase, sem blockchain, focada em garantias de crédito.
Como o Drex foi desenhado para funcionar
Para entender por que o projeto mudou, vale ver primeiro o plano original. A ideia não era criar uma "moeda nova". O real continuaria sendo o real. O que mudaria era o trilho por onde o dinheiro e os bens passariam.
O desenho tinha três peças principais:
- Um livro-razão compartilhado (DLT). Em vez de cada banco ter o seu registro separado, as operações ficariam em uma rede comum, parecida com uma blockchain, mas fechada e controlada.
- Tokens. Um bem, como um título do Tesouro ou um imóvel, seria representado por um registro digital (token) dentro dessa rede. É isso que o mercado chama de tokenização.
- Contratos inteligentes (smart contracts). Pequenos programas que executam uma regra sozinhos: "se o dinheiro chegou, transfira o bem".
O próprio Banco Central usava a compra de um imóvel como exemplo. Hoje, comprador e vendedor dependem de etapas separadas: o dinheiro sai de um lado, a escritura é registrada do outro, e alguém precisa confiar primeiro. No Drex, as duas coisas aconteceriam juntas.
O caminho de uma compra, no desenho original
O cliente nunca acessaria o Drex diretamente. Tudo passaria pelo banco ou instituição autorizada, dentro do aplicativo que você já usa.
O banco representaria o seu saldo na rede do Drex como depósito tokenizado.
O imóvel ou título seria representado por outro token, na mesma rede.
O contrato inteligente verifica se o pagamento e o bem estão disponíveis.
Dinheiro e bem trocam de dono no mesmo instante, ou nada acontece. É a chamada liquidação atômica, ou "entrega contra pagamento" (DvP).
O "atômico" vem da ideia de algo que não pode ser dividido: ou a operação inteira acontece, ou nenhuma parte dela acontece. Não existe a situação de pagar e não receber.
Drex, Pix, cripto e real: qual a diferença
| Drex (desenho original) | Pix | Criptomoedas | |
|---|---|---|---|
| Quem controla | Banco Central e instituições autorizadas | Banco Central | Ninguém em especial (redes abertas) |
| Valor | Sempre 1 para 1 com o real | É o próprio real | Varia com o mercado |
| Para que serve | Negociar bens tokenizados com regras automáticas | Transferir dinheiro na hora | Depende da moeda |
| Você usa direto? | Não, só via banco | Sim, no app do banco | Sim, por corretoras e carteiras |
O Pix resolve a transferência. O Drex queria resolver o passo seguinte: transferir dinheiro e bem ao mesmo tempo, com a regra embutida. Por isso um não substituiria o outro. Se você quiser rever o básico, veja como funciona o Pix.
O que foi testado de verdade
A primeira fase testou principalmente títulos públicos federais tokenizados, comprados e vendidos com entrega contra pagamento. Segundo o relatório divulgado em fevereiro de 2025, os 16 consórcios fizeram, no Drex de atacado (entre bancos e o BC), 420 emissões, 450 transferências e 130 extinções de tokens. No lado de varejo (os depósitos tokenizados dos bancos), foram mais de 1.900 emissões, 300 transferências dentro do mesmo banco, 1.600 entre bancos diferentes e 1.700 extinções.
Esses números mostram que a mecânica funcionava: tokens eram criados, trocados e destruídos. O problema estava em outro lugar.
O nó que travou o projeto: privacidade
Em uma rede compartilhada, os participantes precisam validar as operações. Mas no sistema bancário brasileiro, o sigilo bancário e a Lei Geral de Proteção de Dados exigem que ninguém veja o saldo ou as operações de outro cliente sem necessidade. Juntar essas duas coisas é o desafio.
O BC testou quatro caminhos: provas de conhecimento zero (uma técnica matemática que prova que algo é verdade sem mostrar os dados), segregação de redes, computação confidencial e controle de acesso. As duas últimas foram descartadas. Entre as ferramentas avaliadas estavam o Anonymous Zether (J.P. Morgan e Consensys), o Rayls (Parfin) e o Starlight (EY).
Já em maio de 2024, o coordenador do projeto no BC havia dito que as soluções testadas "não demonstraram a maturidade necessária" para garantir todos os requisitos de privacidade e proteção de dados. Na segunda fase, o BC recebeu 101 propostas de casos de uso e selecionou 50, mas avisou que elas só seriam testadas depois de resolvido o problema de privacidade.
Em novembro de 2025 veio a decisão: desligar a plataforma de testes, baseada na tecnologia Hyperledger Besu. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, resumiu dizendo que a tecnologia testada não se mostrou viável e que existem formas mais simples de chegar aos mesmos objetivos.
O que vem agora: garantias de crédito
A nova fase troca a ambição por algo mais prático. O foco é a chamada reconciliação de gravames.
Gravame é a restrição que fica registrada sobre um bem dado em garantia. O exemplo mais conhecido é o carro financiado: enquanto você paga, ele fica "alienado" ao banco e não pode ser vendido livremente. Hoje, para saber se um bem já está preso a outra dívida, uma instituição precisa consultar sistemas e cartórios diferentes.
A proposta é centralizar essa consulta, para que o banco veja na hora se aquele bem já garante outro empréstimo e em que condições. Isso ajuda a oferecer crédito com garantia com menos risco. Pelas informações divulgadas até agora, essa entrega foi prevista para o segundo semestre de 2026, sem blockchain, com adoção gradual e uso restrito a instituições financeiras. Até a data desta atualização, não encontramos um anúncio oficial de que ela já esteja funcionando.
O que isso muda para você
Por enquanto, nada no seu dia a dia. Não existe aplicativo do Drex, não existe "carteira Drex" para baixar e não há nada para cadastrar. Quem oferecer isso está tentando aplicar um golpe.
Também circularam boatos de que o Drex acabaria com o dinheiro em espécie ou serviria para vigiar a população. O governo federal desmentiu os dois pontos em janeiro de 2025, no serviço Brasil contra Fake.
Atenção: o Banco Central não vende nem distribui Drex e não pede cadastro por mensagem, e-mail ou redes sociais. Qualquer "investimento em Drex" oferecido a pessoas físicas é suspeito.
Se o assunto que interessa é pagar com o celular, o que já existe é o Pix por aproximação, e para contas recorrentes, o Pix Automático.
Perguntas frequentes
A plataforma de testes com blockchain foi desligada em novembro de 2025. O nome e a ideia de modernizar o sistema financeiro continuam, mas a nova fase é uma ferramenta para bancos, não uma moeda para o público.
Não. O Drex nunca foi um ativo disponível para pessoas físicas.
Não. No desenho original, cada unidade valeria sempre um real, e a rede seria controlada pelo Banco Central e por instituições autorizadas.
Não. O governo federal desmentiu essa informação em janeiro de 2025.
O Pix transfere dinheiro na hora. O Drex foi pensado para trocar dinheiro e bens ao mesmo tempo, com regras automáticas, e sempre por meio dos bancos.
- Banco Central: "Banco Central atualiza projeto do Drex" (Resolução BCB nº 382, 2024)
- Banco Central: Relatório do Piloto Drex, Fase 1
- Agência Brasil: Drex enfrenta desafios de privacidade em primeira etapa (fevereiro de 2025)
- Exame: O que vai acontecer com o Drex em 2026 (dezembro de 2025)
- Governo Federal, Brasil contra Fake: Drex não substituirá dinheiro em espécie (janeiro de 2025)




