Atualizado conforme as regras vigentes da Justiça Eleitoral •

Resumo: As eleições no Brasil compõem um dos maiores processos democráticos informatizados do mundo. Administrado pela Justiça Eleitoral, o sistema combina o modelo Majoritário (para Presidente, Governador, Senador e Prefeito) e o complexo modelo Proporcional (para Deputados e Vereadores). Tudo isso é operado através da Urna Eletrônica, uma tecnologia nacional que garante a totalização dos votos em tempo recorde e segurança auditável.

Guia Rápido: Navegue pelo Artigo

Este é um dossiê completo. Vá direto ao ponto que você precisa:

Urna eletrônica brasileira em destaque com a bandeira nacional ao fundo, simbolizando a democracia.

O Gigantismo da Democracia Brasileira

As eleições no Brasil não são apenas um evento político; são uma operação logística de proporções continentais. A cada dois anos, mais de 150 milhões de eleitores se dirigem às urnas para escolher seus representantes. Diferente de países como os Estados Unidos, onde a votação é descentralizada e muitas vezes em papel, o Brasil orgulha-se de ter um sistema unificado, organizado por um poder específico da República: a Justiça Eleitoral.

Este sistema foi desenhado para combater as fraudes históricas da “Velha República”, onde o voto de cabresto e a manipulação de cédulas de papel eram comuns. Hoje, o processo é auditável, padronizado e célere. Mas para entender como ele funciona, precisamos ir além do dia da votação e compreender a engenharia política por trás da distribuição de poder.

Quem organiza o show?

A estrutura é piramidal e apartidária:

  • TSE (Tribunal Superior Eleitoral): O cérebro da operação. Sediado em Brasília, define as regras, gerencia o cadastro nacional de eleitores e totaliza os votos presidenciais.
  • TREs (Tribunais Regionais Eleitorais): O braço executivo nos estados. Eles cuidam da logística de distribuição das urnas e julgam crimes eleitorais locais.
  • Cartórios Eleitorais: A linha de frente. É onde o cidadão tira o título e onde os mesários são treinados.

Vídeo: A Mecânica do Voto

Entender o sistema eleitoral lendo pode ser denso. O vídeo ao lado oferece uma visão didática e visual sobre como os mandatos são definidos.

Ele explica desde a Constituição de 1988 até as regras mais recentes sobre financiamento de campanha e a proibição de doações empresariais, um marco na política recente.

A “Caixa Preta” da Matemática Eleitoral: Majoritário vs. Proporcional

Talvez a maior fonte de confusão para o eleitor brasileiro seja entender por que, às vezes, um candidato com muitos votos não entra, e outro com menos votos é eleito. Isso acontece porque convivemos com dois sistemas distintos na mesma eleição.

1. O Sistema Majoritário: Simples e Direto

Este é o modelo mais intuitivo. Ganha quem tem mais votos. Ele é usado para os cargos do Poder Executivo (quem administra) e para o Senado.

  • Executivo (Presidente e Governador): Para garantir legitimidade, o Brasil exige Maioria Absoluta (50% dos votos válidos + 1). Se ninguém atingir essa marca no primeiro turno, os dois mais votados disputam um Segundo Turno.
  • Senador: Aqui vale a Maioria Simples. Quem tiver mais votos leva, não importa a porcentagem. Não existe segundo turno para Senador.

2. O Sistema Proporcional: Onde o “Nó” Acontece

Utilizado para Deputados Federais, Estaduais e Vereadores. Aqui, você não vota apenas na pessoa; você vota numa ideia (o Partido). O objetivo é que o Parlamento seja um espelho das correntes de pensamento da sociedade, não apenas uma lista de celebridades.

Como funciona o cálculo (Passo a Passo):

  1. Votos Válidos Totais: Soma-se tudo (votos em candidatos + votos na legenda).
  2. Quociente Eleitoral (QE): Divide-se o total de votos pelo número de cadeiras disponíveis. Exemplo: Se há 100.000 votos e 10 cadeiras, o partido precisa de 10.000 votos para ganhar a primeira vaga.
  3. Quociente Partidário (QP): Divide-se os votos que o partido recebeu pelo QE. O resultado é o número de vagas diretas que o partido conquistou.
  4. A distribuição: As vagas do partido são dadas aos seus candidatos mais votados.

É por causa desse sistema que existem os “puxadores de voto”. Um candidato famoso pode ter 200.000 votos, garantindo não só a sua vaga, mas “arrastando” consigo outros colegas de partido que tiveram votação inexpressiva.

Raio-X: Quem você está elegendo?

CargoSistemaRegra de Vitória
PresidenteMajoritário (2 Turnos)50% + 1 dos votos válidos.
SenadorMajoritário SimplesO mais votado (sem 2º turno).
Deputado FederalProporcionalDepende dos votos do partido/federação.
GovernadorMajoritário (2 Turnos)50% + 1 dos votos válidos.
Deputado EstadualProporcionalDepende dos votos da legenda.

O Papel de Cada Representante (Não vote no escuro)

Muitos eleitores focam no Presidente e esquecem do Legislativo, mas é lá que as leis são feitas. Entenda a função de cada peça no tabuleiro:

O Congresso Nacional (Bicameralismo)

O Brasil possui duas casas legislativas federais que funcionam como pesos e contrapesos:

  • Câmara dos Deputados (A voz do Povo): Composta por 513 deputados. O número de representantes varia conforme a população do estado (SP tem 70, AC tem 8). Eles criam leis, fiscalizam o orçamento e podem abrir processos de impeachment.
  • Senado Federal (A voz dos Estados): Composta por 81 senadores. Aqui, todos os estados são iguais: cada um tem 3 senadores, independentemente do tamanho. Eles revisam as leis da Câmara, aprovam indicados ao STF e embaixadores. O mandato é de 8 anos, sendo renovado alternadamente (um terço numa eleição, dois terços na outra).

A Tecnologia: Urna Eletrônica e Segurança

Implementada gradualmente a partir de 1996, a urna eletrônica brasileira é um caso de sucesso global em termos de celeridade. Em um país com regiões de difícil acesso na Amazônia e no Pantanal, a urna permite que o resultado seja conhecido horas após o fechamento das seções.

Mito vs. Verdade: A Urna é Segura?

A segurança da urna baseia-se no princípio do isolamento. A urna não se conecta à internet. Ela não tem placa de rede, wi-fi ou bluetooth. Isso torna ataques remotos de hackers tecnicamente impossíveis.

Além disso, o software da urna passa pelo Teste Público de Segurança (TPS), onde a Justiça Eleitoral convida hackers, especialistas e universidades para tentarem quebrar a segurança do sistema meses antes da eleição. As falhas encontradas são corrigidas antes do pleito.

Biometria: O Fim das Fraudes de Identidade

O cadastro biométrico impede que uma pessoa vote no lugar de outra. Ao chegar na seção, o eleitor coloca o dedo no leitor, e o sistema libera a urna somente se as digitais conferirem com o banco de dados nacional.

Quem Vota? Obrigatoriedade e Isenção

O sufrágio no Brasil é universal, mas a obrigatoriedade varia. Isso visa garantir a participação popular, mas respeita as limitações de idade.

  • Obrigatório: Para alfabetizados entre 18 e 70 anos. Quem não votar e não justificar paga multa e fica com o CPF irregular (o que impede emissão de passaporte, posse em concurso público, etc).
  • Facultativo (Opcional): Jovens de 16 e 17 anos, idosos acima de 70 anos e analfabetos. Eles podem votar se quiserem, mas não sofrem penalidades se faltarem.

Logística de Guerra: Um País Continental

Para garantir que o voto do ribeirinho no Amazonas tenha o mesmo peso e seja contado na mesma hora que o voto do executivo na Avenida Paulista, o Brasil monta uma operação de guerra.

São utilizados barcos, helicópteros das Forças Armadas e até canoas para levar as urnas aos locais mais remotos. Em algumas aldeias indígenas, a urna viaja dias para chegar. Após a votação, os dados dessas urnas isoladas são transmitidos via satélite (através de uma rede criptografada própria da Justiça Eleitoral) para os computadores centrais em Brasília.

Eleitores Aptos
+156 Milhões
Mesários Voluntários
~2 Milhões
Urnas Eletrônicas
~577 Mil
Locais de Votação
~490 Mil

Dados aproximados baseados nas estatísticas do TSE das eleições gerais de 2022.

Voto em Branco vs. Voto Nulo: O Eterno Mito

A cada eleição, circula a fake news de que se mais de 50% dos eleitores votarem nulo, a eleição é anulada. Isso é mentira.

Na legislação brasileira, votos brancos e nulos são votos inválidos. Eles são descartados para fins de contagem. Vence quem tiver a maioria dos votos válidos. Se 90% da população votar nulo, o candidato eleito será decidido pelos 10% restantes.

A diferença entre eles é apenas semântica: o voto Branco historicamente significava “dou meu voto a quem vencer”, enquanto o Nulo é um ato ativo de rejeição a todos os candidatos. Na prática matemática da urna, o efeito é idêntico: nenhum.

Infográfico detalhando o fluxo do voto desde a urna até a totalização no TSE.

Infográfico: O ciclo de vida do voto, da identificação biométrica à totalização.

Fontes Oficiais e Transparência

Em tempos de desinformação, recorrer às fontes primárias é um ato de cidadania. O Portal do TSE oferece estatísticas em tempo real, repositório de dados eleitorais e checagem de fatos.

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Rafael Mendes

Sobre o autor: Rafael Mendes

Rafael Mendes investiga como as coisas funcionam, traduzindo processos complexos — do sistema eleitoral brasileiro à engenharia por trás de tecnologias cotidianas — em explicações claras, técnicas e acessíveis.